III Jornada do Instituto Espe
Londrina, 05 de agosto de 2023
De qual tempo estamos falando aqui e agora? Quantas gerações diferentes ocupam lugares nesse auditório hoje? Facilmente constatamos aqui uma excelente amostragem de gerações denominadas X, Y, Z, Milleniums... Ou seja, há entre nós tanto aqueles que nasceram num universo formalmente analógico, quanto os nativos digitais, aqueles que convivem com os recursos tecnológicos desde seu nascimento e que se encontram mais próximos multiverso, e mais familiarizados com a pluralidade e a multiplicidade de derivas identitárias (Cf. Roudinesco, “O Eu Soberno”, 2022). A diversidade que encontramos nesta sala revela o quanto a expressão “nosso tempo” guarda uma complexidade, pois na tentativa de fazer-se Um – um único tempo- a unidade se mostra fragmentada.
Está aí uma dificuldade desse tempo em que estamos vivendo: “fazer-se Um ... sem o Outro”. Cada um à sua maneira, segundo suas vontades, suas escolhas, seu modo particular de gozo. Sem a referência do Outro, num mundo cada vez mais autorreferente, que podemos resumir num enunciado: “Eu quero escolher quem eu sou sem precisar que o Outro me diga quem eu devo ser.” Com o declínio do simbólico e a ruptura na transmissão vertical, própria do patriarcado e das sociedades tradicionais, resta a cada sujeito construir seu universo particular, seu corpo, seu gênero, sua cor, seu nome. Conforme aponta Luiz Mena no texto “Do Outro ao Um” no livro “O Infamiliar na Contemporaneidade: O que faz família hoje?” (2021) a cada um resta a imposição – e, não a escolha - de construir sozinho o seu caminho, sem mais contar com as migalhas de pão deixadas pelo Outro. Ganha-se liberdade, mas paga-se com desamparo!
O início do novo milênio anunciava uma nova era. Os avanços tecnológicos e científicos alcançados no decorrer do Século XX já denunciavam um novo modo de buscar respostas aos enigmas essencialmente humanos, a saber: o nascimento, a morte e a sexualidade. Mistérios que, desde a origem da humanidade, exigiram do ser-falante construir respostas, teorias e até ficções para tecer uma rede simbólica-imaginária que sustentasse sua existência efêmera e transitória nesse mundo.
Em tempos passados, a chave para tais interrogações encontrava abrigo nos discursos familiares, religiosos ou político-ideológico. Na atualidade, o ser humano, com a pretensão de se desvencilhar de “velhos discursos”, passou a buscar respostas rápidas e eficientes, ao modo fast-food: na medicalização, nas orientações de “coachings”, nos “digital influencers”, no Dr. Google, nas meditações e nos livros de autoajuda. Gradativamente abandonando sua capacidade de se interrogar sobre si mesmo, sua vida e sobre seu próprio sofrimento, adere como presa fácil a receitas ilusórias sobre como ser mais eficiente e produtivo, ter saúde, longevidade, sucesso, poder, dinheiro e garantir o amor e a prometida felicidade.
Lembremos que para a psicanálise, o homem é constituído numa dialética entre o campo individual e o social. Nossa subjetividade é construída na coletividade. Somos efeitos da linguagem, da relação com o Outro (tesouro de significantes), que encarnado em um outro(semelhante) nos introduz num mundo marcado pela falta, pois nenhum objeto poderá nos satisfazer plenamente e nenhum significante será capaz de dizer quem somos. A falta de saber sobre nós mesmos e de compreender os mistérios de nossa existência nos joga numa alienação ao campo do Outro em busca de respostas e significação desde nosso nascimento.
Me lembro de escutar o filósofo Danny Robert-Dufour num evento sobre “Ética e Cidadania” no ano 2000, onde afirmava sobre o risco de dissolução do Outro numa sociedade onde os homens são solicitados a se livrar de todas as sobrecargas simbólicas que garantiriam suas trocas. Pois, com o neoliberalismo, a troca mercadológica prevalece, o valor simbólico dos objetos é reduzido ao seu valor de consumo, numa forte tendência de “dessimbolização” do mundo.
Confesso que tive dificuldades para entender tal anunciação, que me soou como catastrófica desde sua enunciação. Pois, o Simbólico, sabemos, é o que distingue as gerações, dando a cada um o seu lugar na família e na sociedade; é o que vem dizer ao sujeito que há um discurso social que nos organiza, que ele não pode tudo, nem mesmo partilhar o gozo da geração precedente, e que ele deve esperar por sua vez. Mas, é também a lei simbólica que lhe garante a posição de sujeito desejante, ao barrar o gozo ou a realização do incesto, conforme Freud nos mostrou em Totem e Tabu.
É incontestável que o mundo sofreu intensas e profundas mudanças nas últimas décadas. Mas, qual a relação entre as mutações culturais, sociais, políticas e econômicas que vêm acontecendo e a constituição da subjetividade humana?
A célebre frase de Lacan no Discurso de Roma (1953) “Função e Campo da fala e da Linguagem (Escritos, 1998): "Que antes renuncie a isso quem não conseguir alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época", tão repetida em tempos de pandemia, ecoa em nossos ouvidos e nos chama à responsabilidade de investigarmos sobre as consequências das mutações acima mencionadas na constituição de uma nova economia psíquica para que possamos alcançar o espírito de nosso tempo.
Sabemos que a novela familiar sempre foi o caldeirão onde a receita do viver coletivamente era elaborada e temperada, ao preço do recalque dos impulsos mais primitivos (sexuais e agressivos) por parte de cada indivíduo, cujo resultado sob a forma de sentimento de culpa, garantiria que a civilização pudesse perdurar, conforme encontramos em Freud no texto “Mal-Estar na Civilização” (1930).
Sobre essa questão, o psicanalista Charles Melman, em seu livro “O Homem sem Gravidade” (Cia Freud, 2003) argumenta que: “Há uma nova forma de pensar, de julgar, de comer, de transar, de se casar ou não, de viver a família, a pátria, os ideais, de viver-se” (p.15). Discute a passagem de uma economia psíquica organizada pelo recalque para uma economia vetorizada pelo gozo e questiona quais promessas são feitas ao homem hoje a fim de que o sujeito aceite a renúncia de algum de seus impulsos.
O psicanalista Jean-Pierre Lebrun (2004), por sua vez, afirma: “a partir desse novo dispositivo social, iremos assistir e já estamos assistindo à eclosão de uma nova clínica. Esta se mostra tributária de que alguns se aproveitem para se desembaraçar do pai e para se desembaraçar, simultaneamente, do terceiro.”
Segundo Lebrun, o declínio da função paterna, a perda das grandes narrativas e ideologias, dão lugar a um “mundo sem limites”, nome de seu livro publicado no Brasil em 2004. Argumenta que há um imperativo de gozo no discurso social que exige a satisfação pulsional a qualquer custo, sob a face de um supereu cruel e sádico que vocifera “Goze a qualquer preço”. Você tem direito a gozar de tudo, e se você não está desfrutando do gozo máximo da vida, a culpa é sua! Eis a ditadura que reina nos dias atuais!
Aprendemos com Freud e Lacan que nossa capacidade de julgar, pensar e representar dependem da capacidade de simbolizar a falta. A pretensão onipotente de tamponá-la com os objetos de consumo oferecidos pela Ciência e Tecnologia, ou com o saber que alcançamos com o teclar o dedo no Google, é a produção de um rebotalho humano, cuja capacidade de transitar no simbólico se encontra ameaçada.
Acrescente-se, ainda, que o império crescente do narcisismo fomentado especialmente nas redes sociais, regulado mais por princípios estéticos do que éticos, esvaziado dos referenciais simbólicos que guiavam o sujeito entre seu passado e seu futuro, faz emergir uma forma de desamparo diante do excesso de gozo que transborda e as reações violentas aparecem quando a palavra e a voz não têm mais lugar. Quando aquele que fala não é reconhecido como sujeito, ao se deparar com sua condição de mero objeto-coisa, é forçado a agir: a ação, o acting-out, a passagem ao ato, são as saídas encontradas para a angústia com notável frequência na clínica atual.
E o que dizer sobre a revolução tecnológica que coloca o sujeito diuturnamente no campo das relações virtuais? Julieta Jerusalinsky (2017) apresenta um trabalho fascinante sobre as consequências da tecnologia nos laços familiares e que alteram o processo de simbolização bem como a constituição do narcisismo na primeira infância. Nos adverte sobre o sofrimento das crianças que comparecem nos consultórios, vítimas do que ela denomina “intoxicações eletrônicas”, nome do livro (Ed. Ágalma, 2017) por ela organizado onde encontramos amplas reflexões sobre qual rede sustenta o sujeito contemporâneo, no balanço entre o publico e o privado, entre o lazer e o trabalho, entre a realidade e a ficção, ao ser e estar lançado virtualmente na web.
O campo da palavra encontra-se esvaziado, dando lugar a estímulos visuais incessantes, num grau de excitação exacerbada e mortífera, por nos manter conectados o tempo todo às telas. E o tempo da elaboração nos escapa na velocidade atroz das informações que nos chegam, que pouco discernimos sua condição de falsas-verdades, muitas vezes.
Estamos todos (ou quase todos) mareados de tanto navegar na internet ou até mesmo afogados de tantas notícias e pseudonotícias.
Destaco, ainda, a lúcida discussão que podemos encontrar na coletânea de artigos que a psicanalista Leda Bernardino nos apresenta na recente publicação “Infâncias em tempos distópicos: o que pode a psicanálise?” (Ágalma, 2022), que trata seriamente do desamparo que acomete crianças e seus adultos de referência, num mundo em que se pretende desembraçar do Outro. Pois a clínica nos mostra como a geração atual tem mais dificuldades em aceitar as frustrações e as angústias próprias da existência do ser-falante, de se reconhecer como castrado!
Nas sociedades tradicionais, com menos possibilidades de criação do novo e mais repetição do mesmo, a existência encontrava certa continência. Como já afirmei mais cedo : ganhamos em liberdade, pagando o preço do desamparo!
Me utilizei de vários autores e textos escritos no início do século - quando a virada de milênio era uma profecia apocalíptica por parte de vários pensadores, não somente psicanalistas, como filósofos, educadores, sociólogos - e também de outros que foram produzidos em data mais recente. (Livros que muito recomendo!)
A partir dos estudos, pesquisas e produções que citei aqui (e de muitos outros não mencionados) podemos concluir que novos sintomas ou novas formas clínicas são respostas à elisão da falta, ou seja, uma recusa a um discurso social dominante que tende a reduzir o humano a uma máquina neuronal, de onde o desejo e o Inconsciente são excluídos.
Os casos clínicos de difícil manejo que comparecem cotidianamente em nossos consultórios tradicionais ou institucionais - tais como os casos de depressão, automutilações, atos de violência e suicídio - nos instiga a buscar sustentar nosso ofício, renovando, de modo ético, a psicanálise viva em “nosso tempo”.
Somos testemunhas de que a psicanálise atravessa o tempo, contrariando inúmeras profecias sobre sua decadência ou desaparecimento.
A velha senhora continua de pé, apesar dos ataques frequentes (e recentes!!) E podemos dizer que muitos ainda se contaminam pela peste! (Vejam o auditório cheio hoje...). Ao contrário do que muitos previam, a psicanálise não morreu, mas se relança ainda mais viva ao ampliar seu alcance para fora dos consultórios. Há psicanalistas trabalhando nas instituições mais diversas (como pudemos escutar nas apresentações dessa Jornada), buscando manter a ética que lhe é própria, apesar de toda a tendência biologizante e comportamentalista que atinge o social.
À pergunta: “Qual psicanálise para nosso tempo?” respondo com outra pergunta: “há outra psicanálise que não seja aquela fundada por Freud?”
Em tempos sombrios, façamos como ele! Não devemos recuar de nosso lugar e de nosso posicionamento ético, diante de profecias apocalípticas ou de ataques destrutivos ao nosso ofício. Cabe-nos manter a vigência da palavra e a dignidade do simbólico que ela engendra! A força política da psicanálise recolhe seus efeitos exatamente por destituir a crença na solução universal, no pensamento único, diluindo as identificações em massa, sustentando a vitalidade de um furo operante, um vazio pulsante.
Nas palavras de Lacan (1973, Declaração à France Culture): “O discurso da ciência tem consequências irreparáveis para o que se chama a humanidade. A psicanálise é o pulmão artificial com a ajuda do qual tentamos assegurar o que é preciso de gozo no falar, para que a história continue”.
Trabalhamos para que não falte o ar, para que a falta não falte!
Muito Obrigada!